terça-feira, 28 de julho de 2009

Teatro Lambe-Lambe

"A última grande invenção do teatro de animação no mundo"

Álvaro Apocalypse

LAMBE-LAMBE

O menor teatro do mundo

Lambe-lambe é o nome popular dado aos fotógrafos de rua que trabalhavam em praças de várias cidades do Brasil, devido à antiga e peculiar maneira deles utilizarem o meio de revelação dos negativos, lambendo-os. Esta prática foi abolida no século passado, mas ainda permanece vivo em nossos dias por muitos desses profissionais.

O "teatro", onde a peça é encenada, é um processo muito semelhante às câmeras usadas pelos fotógrafos Lambe-lambe em seu trabalho. O que consiste em uma caixa preta parcialmente coberta por um pedaço de pano preto, sob a qual o espectador (um pessoa a cada apresentação) é
colocado em frente à caixa para assistir ao espetáculo.

Mantendo-se atrás do cenário, o manipulador veste suas luvas e através de aberturas laterais na caixa manipula os bonecos que contracenam na peça. A iluminação é provida de uma lâmpada ou luz natural, lançada sobre a cena através de uma outra abertura no topo da caixa. O som é adicionado única e exclusivamente pelo talento e voz do artista manipulador.

*Texto publicado no folder sobre o Lambe-Lambe

TEATRO DE LAMBE-LAMBE

O Teatro de Lambe-lambe disseminou-se pelo mundo afora e constitui-se em uma modalidade de teatro de animação.

Brincar é a essência e a fórmula do teatro. O drama salta na solidão da alma quando encontra o brinquedo. Brincando, o "eu" se purifica e encontra o outro. Quando esta relação se estabelece e pode ser repetida, o publico é chamado para participar. Nasce o teatro, o espaço para o olhar.

Ismine Lima

domingo, 5 de julho de 2009

Primórdios do Lambe-lambe

Carta aos caixeiros viajantes, lambe-lambeiros, lambe-lambistas... etc. Os primórdios do lambe-lambe, assim foi seu nascimento.

Tinha uma amiga que fazia um parto na sala, na mesa do professor.

Um dia, eu disse, não faria um parto devassado, parto requer uma intimidade e então surgiu a caixa do teatro lambe-lambe que abrigou A DANÇA DO PARTO.

Tinha também um casal que ela ensinava a usar a camisinha e isto foi transformado no IMPÉRIO DOS SENTIDOS, conhecia este filme, virou uma peça para Teatro lambe-lambe. Mas existe também uma outra razão de ser do teatro lambe-lambe que a questão financeira do teatro de rua... não concordo com o chapéu, acho que o teatro tem ter um preço estabelecido a caixa é um teatro independente, volante, andarilho e deve ser cobrado, tem até um porteiro, bem vestido, que deve ser um ator performático. Porque senão nunca o teatro evolui.

A outra questão básica que se constitui numa trilogia, o tripé deste teatro, é a profunda intimidade que ator manipulador do teatro lambe-lambe estabelece com o publico, é algo visceral. É neste momento que se compreende a força que o boneco tem e o domínio que você pode ter sobre esta audiência. Reside ai a força e o perigo do teatro de bonecos.

Ariel Bufano, o grande bonequeiro argentino dizia, o bonequeiro (ele falava titeriteiro) tem que ter uma consciência dos deuses, senão ele manipula pra qualquer coisa e o teatro de bonecos tem quer servir pra dizer algo que deve ser dito, que precisa ser dito é um grito de dor, de alegria e morte.

Fazer uma peça para o Teatro lambe-lambe é como encontrar uma pérola no fundo do mar.

É um Ray Kay em imagens.

Dei nome a DANÇA DO PARTO e AO IMPÉRIO DOS SENTI DOS e tenho seguido por ai por esta linha, fiz o Palhaço e a Bailarina, cuja síntese é o Palhaço e as Intimidades com as coisas "secretas de uma bailarina". Fiz O Quarto de Van Gogh Revisitado e neste momento tenho trabalhado com a "Caixinha de Música Quebrada" baseada numa peça musical de Villa Lobos.

Ismine Lima.

sábado, 4 de julho de 2009

O Teatro de Bonecos

O Teatro de bonecos é incomparavelmente mais marcante e indelével do que o teatro de atores.

Atores se eternizam quando conseguem se aproximar do trabalho de ator de um boneco.

O maior exemplo que temos na história do teatro/cinema é Charlie Chaplin. O que ficou dele em nossa memória, juntando todas as imagens de todas as suas apresentações, nos nossos istmos de memória ( em quem não é cinéfilo) é a imagem de um boneco animado.

Teatro de Lambe Lambe

Vamos imaginar estas palavras que compõe o título desta modalidade de realizar a arte do teatro.
Lambe - Lambe... Olha -Olha, dentro de uma caixa escura, um quarto escuro, uma câmara escura. O lugar da intimidade do mistério, que gera imagens reveladoras das fantasias mais pueris e as mais cavernosas. Lambe, lambe, olha, olha, real, imaginário, lugar onde penso mentiras no silencio da minha solidão e finjo não saber que alguém esta vendo minhas verdades. Recanto onde me recolho para lamber as minhas feridas.

Lugar onde vamos além das dúvidas
Somos algo mais do que este corpo que vemos
Que tocamos.

Apaga-se a luz do quarto
vive-se o prenuncio de um sonho que se revelará à consciência, ou não. Revelando-se ou não, sabe-se.
Estando vivos, estaremos sem acesso à mente desperta, que nos faz conscientes da forma superficial e conhecida, alienada e mecanizada.

Não vivemos, quando acordados, dizendo a nós mesmos: Olha a minha imagem, como ela é, que interessante, eu existo, me movimento, sou um ser de extrema complexidade....não dizemos isso a nós mesmos ao olharmos-nos no espelho.
Mas quando entramos em nosso quarto para dormir,
Sabemos, que o mundo para onde vamos
não esta conformado, confinado às mesmas leis da luz solar,
mas “vemos coisas” em nossos sonhos
percebemos nuances de luz e muitas vezes,
várias cores...

Mecanicamente falando, a caixa de teatro de Lambe-Lambe,
reproduz este clímax,
este ambiente misterioso do sonho.
É a caixa mágica onde se guarda e preserva a memória de um sonho. Mas também é uma arapuca,
onde todos os atores tem seu papel e função,
inclusive a própria caixa...

...Quando olhamos para dentro de uma caixa de teatro de Lambe-Lambe, que é igual às caixas de fotografia de Lambe-Lambe,
mas o objeto da foto,
o sujeito que recebera o serviço de ser fotografado,
cuja maquina de fotografia é a caixa,
o Cliente,
fica no lugar do fotografo,
ele se cobre com um pano escuro e vai olhar dentro daquele
“laboratório de sonhos”
onde ainda podemos registrar outra inversão:
“O sonho é que se prepara para receber o sonhador.
Então o Cliente, o sonhador
estará surpreendendo o sonho,
que se revela,
que tenta se repetir na eternidade do intervalo (tempo cronológico de duração da peça) de 1 a 4 minutos.

A grande virtuosidade,
Digamos; a grande arte-ciência da caixa escura do teatro de Lambe-Lambe é dramatizar e fazer submergir os sentimentos e sensações
do mundo dos sonhos.

Acreditamos que esta arte-ciência esteja apenas engatinhando nas suas imensas possibilidades, as imensas e importantes possibilidades de operar artesanalmente, na relação direta e sensitiva dos atores manipuladores, escultores, cenaristas, terapeutas artistas, arte terapeutas, arte psicanalistas no trato com as questões que perturbam e engrandecem, e enaltecem o ser humano, colocando-o diante de si e da sua imensa ordem de complexidade com a vida, com o meio anímico, simbólico.

Note-se que não é necessário ninguém conhecer ninguém, apenas os olhos irão se reconhecer no instante único e irrepetível do lambe-lambe olho no olho...e um dos dois não se sabe sendo olhado diretamente pelo “fotografo” dos sonhos,
que sabe-se olhado através do sonho criado
que se contamina com o sujeito que olha o sonho e este com o sujeito que cria o sonho
que será revelado.
E apesar se sempre “igual”
sempre revelará suas diferenças e nunca se tornara monótono.
É comum, é igual e é único ao mesmo tempo o que nos remete
à princípios de evolução social, de amadurecimento psicológico, de sutilização e apuração de sentidos, de critérios de avaliação de si.
Esta claro que estamos nos remetendo a uma visão de futuro da proposta, onde devera ser agregado o fator premente do seu status nascendi, bem definido por uma de suas criadoras,

Ismine Lima.

Ismine insiste - Intuição - a intuição de uma educadora,
mãe criadora,
espírito que ao se libertar liberta,
arrasta quem estiver no caminho.

Ela lembra que o teatro de lambe lambe,
nasceu da necessidade de se criar ambientes íntimos, para revelar conteúdos intimistas, como parir, como seduzir, sexualizar, masturbar-se, escrever poesias, versos de amor, contar dinheiro escondido, planejar assassinatos, dormir, pensar coisas que nos envergonham, fantasias que nos excitam e escandalizam,
simplesmente estar sós conosco mesmos,
pintar um quadro doloroso, silencioso,
planejar, roubar, pegar coisas dos outros,
ler diários secretos,
meter o dedo em determinados lugares,
olhar as pernas da tia por baixo da mesa.
Maltratar animais e pessoas mais frágeis.

Vasco, e Ismine.....entre-vistas, por Solange Valladão

Inspirados na obra de Ismine Lima